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Sobre Cisnes Negros

23/03/2020




No começo de 2020, o Brasil estava otimista com a expectativa que finalmente se teria um “ano normal" e que a Bovespa poderia crescer até 30%. De repente, dois eventos desfizeram os planos.

O primeiro é a epidemia de COVID-19. Uma ameaça para a economia global que pode durar apenas dois meses. Ou talvez mais. O segundo é a guerra de preços de petróleo entre a Arábia Saudita e a Rússia que está levando o preço do barril ao patamar de US$ 30. Ou talvez menos.

Esses eventos são chamados de “Cisne Negro", uma metáfora por serem raros, de alto impacto e com probabilidade muito baixa ou desconhecida de acontecerem. Não há como prever quando um cisne negro ocorrerá, mas se sabe que eles ocorrem de tempos em tempos.

Epidemias, por exemplo, ocorrem com uma frequência de aproximadamente uma década e podem ser contidas rapidamente – como foi o caso da H1N1, do SARS e da MERS – ou podem se espalhar violentamente, como a gripe espanhola e a atual epidemia de COVID-19. Outras têm efeitos que levam décadas para serem reduzidos, como a de HIV. Não há como predizer quando e como será a próxima, mas ela sempre virá, não adianta.

Uma epidemia pode ser relativamente controlada com o fechamento de fronteiras, isolamento forçado, busca de vacinas e tratamentos hospitalares. Entretanto, todas essas medidas implicam na redução da atividade econômica causando uma “Recessão em V" ou “Recessão em U", termos que se referem ao formato aproximado da redução da atividade econômica.

O caso de guerras, sejam elas comerciais ou militares, é diferente. Elas podem ser consideradas um Cisne Negro ou não a depender da existência de sinais razoáveis anteriores aos seus efeitos serem percebidos. Exemplos são o ataque japonês a Pearl Harbor, a ascensão do ISIS e o atentado às Torres Gêmeas de 2001. Todos eles pegaram a comunidade internacional de surpresa, mas tinham sinais anteriores que foram desprezados.

A atual “Guerra de Preço" entre Rússia e Arábia Saudita também tem seus sinais anteriores, como a disputa indireta que ocorre no Oriente Médio desde 2014, quando a Guerra Civil na Síria desestabilizou toda a região. Mas uma redução drástica no preço de petróleo no meio de uma diminuição da demanda global foi uma surpresa, ainda que se tenha precedentes.

Seus efeitos podem ser analisados por um modelo da teoria dos jogos chamado de “Jogo da Galinha", uma tradução esquisita do original Chicken Game – a tradução mais correta seria “O jogo do Covarde".

Variações desse cenário que explicam o jogo aparecem em filmes como “Rebelde sem causa", “Footloose – Ritmo Louco", “De Volta para o Futuro", “As Panteras Detonando", “Mais velozes e Mais furiosos" e “Velozes e Furiosos 7".

Mas a aplicação do jogo em teoria militar talvez seja mais apropriada como um jogo em que ninguém vence ao jogar. Neste caso os melhores exemplos aparecem em “Doutor Fantástico", “Jogos de Guerra" e “A Caçada ao Outubro Vermelho".

A situação neste caso é que dois jogadores ao lutarem uma guerra, neste caso de preços caindo, só têm a perder, e ambos destruirão um ao outro. É um jogo em que não tem como vencer – ou como diz Joshua, o computador de “Jogos de Guerra", na cena final, “a única forma de vencer é não jogar".

Essa guerra é um jogo em que uma aposta pode resistir mais do que a outra. No caso, os Sauditas querem quebrar as iniciativas de energia alternativa no mundo todo, em particular o gás de Xisto nos EUA. Na minha opinião, eles não conseguirão e só atrairão mais desconfiança e acelerarão a buscar por energias alternativas.

Existem ainda muitas outras formas de Cisne Negro. Faço uma análise mais longa destes tipos no final do meu livro mais recente, “Um século em quatro atos" (Alta Books, 2019). Para este texto, creio que caiba uma lista relativamente simples.

Primeiro, existem os Cisnes que causam destruição, como terremotos, maremotos, queda de asteroides, acidentes nucleares, ataques terroristas, colapso do ecossistema (terrestre ou marinho), redução da atividade solar (mínimo de Maunder), explosão do supervulcão de Yellowstone, reversão dos polos geomagnéticos, acidentes com aceleradores de partículas, com armas biológicas e com nanotecnologia. A maioria destes eventos nos remete novamente a filmes e suas probabilidades são ínfimas ou desconhecidas.

Existem os Cisnes que causam efeitos positivos, criando novas possibilidades ou mesmo novas indústrias. A maioria se refere a tecnologias que são lentamente desenvolvidas e que podem se tornar viáveis economicamente de forma repentina. Aqui temos como exemplos a computação e a comunicação quântica, grafeno, fusão nuclear, elevador espacial, motor de dobra de Alcubierre e a inteligência artificial forte.

Finalmente existem os casos que podem ser negativos ou positivos. Meus dois exemplos são o contato com civilizações extraterrestres e o surgimento de uma nova religião, ou messias, que altere o equilíbrio de forças religiosas no planeta.

A última parte deste artigo é um misto de recomendação e alento nestes tempos difíceis.

Conta uma lenda árabe que um sultão fez um concurso para desafiar quem seria capaz de criar uma frase que servisse de consolo nos tempos difíceis e de aviso nos tempos de opulência. A frase vencedora foi “isto também passará". No oriente, existe o conceito da “impermanência" ou de que nada é permanente. No ocidente Heráclito de Éfeso cunhou a frase “A única coisa permanente é a mudança".

As crises atuais passarão e a economia voltará a crescer. O mundo voltará ao normal.

A defesa para estas situações é sempre manter a liquidez para poder comprar barato na baixa e se defender da crise que destrói quem está endividado e alavancado. Não sabemos quando, ou por qual razão, a próxima crise virá, mas ela virá.

Operações muito enxutas e muito no limite, sem margem para erro, acabam sendo mais afetadas nestes casos. Há uma relação de troca entre risco e retorno, às vezes nem percebida.

Para quem conseguir se manter líquido no meio da turbulência a crise pode ser uma grande oportunidade. Encerro este artigo com uma frase atribuída a Nathan Rothschild que recomendava “Compre quando há sangue nas ruas".

Paulo Vicente dos Santos Alves é professor da Fundação Dom Cabral. Fez parte do Global Colloquium in Participant Centered Learning (GLOCOLL) da Harvard Business School em 2012. É Founder Member do Strategic Management Fórum. Autor dos livros “Um século em quatro atos", “Jogos e simulações de empresas", e “Gestão Pública contemporânea" pela Alta Books, do e-book “Emerging Markets Report", publicado pela AVEC Editora, e do livro “Jogos de Empresas", publicado pela Pearson/Makron Books. É Ganhador do Prêmio de Melhor Estratégia de Marketing dado pela Publicis, no L'Oréal Marketing Award 2004 como professor orientador. Foi classificado como 29o no Best Business Professor of the year promovido pelo The Economist Intelligence Unit em 2012-13