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A crise da gestão da crise da Covid-19

25/06/2020


Por José Alberto Cunha Couto
(Chefiou o Gabinete de Crises da Presidência da República por 12 anos)


Tempos que colocam à prova a alma humana.
Thomas Paine, The Crisis I, dezembro, 1776.


Passados mais de cinco meses do início do combate ao novo coronavirus no mundo, permanecem muitas incertezas, dificultando a tomada de decisão de governantes. Alguns deles parecem ter adotado decisões mais assertivas; outros, entretanto, fizeram da gestão da crise uma crise em si mesma.

Isto porque a doença Covid-19 gerou uma crise global e multidimensional, em que o destino das populações está em jogo. É uma crise que requer liderança, como, até aqui, tivemos o exemplo, dentre os países democráticos, da Primeira Ministra da Nova Zelândia – Jacinda Arden.


Mais uma vez, vivenciamos que na crise, verdadeiramente, um governante é testado. Tal se verifica especialmente em pandemias, pois estas potencializam problemas que já vinham ocorrendo e tem uma dose de ineditismo em sintomas, reações, velocidade de contágio e efeitos colaterais. Estas consequências lembram os cidadãos que é responsabilidade de todo governo entregar à população bons serviços, seja na saúde, na educação, na segurança e em outras áreas.

Vírus é um fenômeno natural. Depois da gripe Espanhola (1918-19), tivemos, no passado recente, seis epidemias: as gripes Asiática (1957-58) e de Hong Kong (1968-69), a Aids (1982, até hoje), a SARS (2002-04), a MERS (2012) e o Ebola (2014). Algumas se transformaram em pandemias, mas todas obrigaram os governantes a fazer frente a grandes problemas de saúde pública, políticos e socioeconômicos em seus países.

Recordemos que estudos feitos quando da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), também causada por um coronavírus, já apontavam para a ocorrência de novas pandemias.

 

Os números da atual pandemia estão caindo na Europa e na Ásia, iniciando-se, nessas regiões, discreta abertura do comércio e relutante retorno dos estudantes às suas escolas. A atenção agora, nesses países, se volta para a ressurgência de casos da Covid-19. Isto porque perdura o desconhecimento sobre o comportamento do vírus, da doença ao interagir com o humano, e da evolução da endemia em cada região. 

O desconhecimento sobre a evolução da doença Covid-19 continua retardando e desafiando a preparação dos países para enfrentar a pandemia. Essa falta de preparação foi mais sentida em países, como o Brasil, que, apesar de dispor de um abrangente Sistema Único de Saúde e de ter tido algum tempo para observar a evolução da Covid-19 na Europa até a chegada ao nosso território, se mostrou carente dos recursos que se faziam necessários.

 

O fato é que, com o estabelecimento da pandemia, nunca foram tão valorizados os epidemiologistas, os virologistas e os infectologistas, porque de seus conhecimentos dependerá a vacina, que será a solução. Enquanto não se chega à vacina, o que nos resta é bem interpretar as "curvas" de infectados e de óbitos, mirando, com aflição, se será excedida a capacidade de atendimento pelo sistema de saúde.

 

[...] Uma das lições aprendidas com a gestão de crises se fez presente: a crise de saúde não estava sozinha; dela decorreu uma crise econômica; desta uma social, e ainda uma política. Com isto, qualquer que fosse a decisão de adotar um ou outro processo de enfrentamento da doença, esta decisão parecia ser ruim, pois não se mostrava adequada. Tratava-se de escolha entre a eficiência do sistema de saúde, por dar prioridade ao tratamento dos infectados; ou focar na recuperação econômica, ao que se chamou de “novo normal", após a passagem do período crítico.

 

Lendo os noticiários, podemos visualizar decisões tomadas por alguns governantes, mas nos ficou clara a pouca cooperação internacional entre os países.

A Itália, a Espanha, a França e a Inglaterra não acreditaram que a Covid-19 seria grave, mas, com a escalada da crise, foram obrigadas a adotar o lock-down. Já a Alemanha, a Coréia do Sul e Portugal foram melhores sucedidos no enfrentamento da doença, adotando, mesmo antes que ela havia se manifestado em seus países, testagem em massa das suas populações, acompanhada de isolamento.

A Suécia, que chegou a ser apontada por alguns como exemplo, adotou a "contaminação em rebanho", não alterando a vida normal das cidades e, como consequência, teve os seus números de infectados e de falecidos muito superiores aos dos outros países escandinavos (Finlândia, Noruega e Dinamarca), que adotaram a política de distanciamento social.

Os Estados Unidos, devido ao estilo de governar de seu Presidente, ao isolacionismo, e às eleições que deverão ocorrer ao final do ano, de início ridicularizaram a Covid-19, com foco na situação econômica. Mostraram-se contrários ao isolamento social e dividiram as opiniões dos eleitores.

 

No Brasil, se confirmou a lição de que, numa crise, a verdadeira liderança é aquela que consegue promover a coesão: coesão entre as pessoas e entre os Poderes. A inação de um dos três poderes leva os outros dois a tentarem ocupar o vácuo de poder. Sem esta coesão, a pandemia pega o nosso país com baixo crescimento econômico, contas públicas desorganizadas, empresas defasadas tecnologicamente, e produtividade baixa, tudo apontando para problemas pré-existentes.

Em nosso país, enquanto a crise tinha como referência a Covid-19 e os problemas econômicos a ela associados, foi possível conter, com dificuldade, o senso comum de que “tudo pode piorar". Porém, ao não reconhecer a dimensão social da crise, começaram as manifestações, os protestos organizados, a incompreensão dos limites das atribuições constitucionais dos Poderes e o agravamento da crise política. Evidenciaram-se, então, as ineficiências, as incompetências, a economia com baixo crescimento, a desconexão entre os políticos e os cidadãos, a desconfiança na política, e assim os resultados das ações tomadas contra a Covid-19 mostraram-se, em alguns casos, irrelevantes. Isto porque, diante da gravidade da pandemia, não basta apenas falar: há que se empreenderem ações concretas, especialmente nas áreas da saúde, da economia, e sociais.

Também permaneceu a falta de colaboração com outros países, entre os estados e entre os municípios. Sem uma efetiva coordenação central, a pandemia fez o Brasil parecer uma espécie de confederação.

 

  • E o futuro? Como será o pós-crise?

São muitos os questionamentos: será o fim da globalização ou do capitalismo? Desta pandemia surgirá um mundo novo? Uma hegemonia chinesa? Ainda serão possíveis cooperações internacionais ou vivenciaremos unilateralismos? E os Organismos Internacionais e até mesmo a Democracia?

Análises feitas pelos que já passaram pelas graves pandemias, em que as perdas em vidas, em empregos e em rendas são absurdas, nos dizem que o mundo igual não será, mas há exagero em falar que tudo mudará ou que haverá profundas alterações nas estruturas hoje existentes.

Com relação ao futuro da Economia, uma característica da Covid-19 foi sua velocidade de propagação, com grandes impactos por todo o mundo, derrubando, ao mesmo tempo, os maiores mercados, com quedas nos investimentos e nos empregos.

Um cenário “otimista", segundo o Fórum Econômico Mundial, nos levará às recessões do PIB mundial de 3 a 5% e comercial de 13 a 32%, e este cenário dependerá de como controlarmos a Covid-19 e das políticas adotadas para corrigir o período pandêmico.

Roberto Azevedo, que dirige a Organização Mundial do Comércio, prevê para o pós-pandemia: diversificação das cadeias de suprimentos; maior digitalização da Economia; redução da estratégia de os países não fazerem estoques; e busca de redução das vulnerabilidades na agricultura e no agronegócio para prover segurança alimentar. O comércio exterior continuará inevitável.


  • A ONU parece estar paralisada. Continuará assim?

Para o futuro próximo, o temor de uma segunda onda da pandemia desafia as ações encetadas para o “novo normal", pois poderá acarretar novas rupturas econômicas, sociais, ambientais e até mesmo tecnológicas. As grandes manifestações (sem os cuidados quanto ao distanciamento entre as pessoas e o uso correto de máscaras) e a abertura talvez prematura do comércio aumentam a probabilidade do ressurgimento desta pandemia.


Escrevemos aqui sobre o passado, o presente e o futuro desta pandemia. Que lições tirar, até aqui, das duas ideias-força aqui apresentadas?


Problemas conhecidos mas que ganham nova dimensão com a pandemia:

  • a falta de habitação, tornando impossível quarentenas em áreas pobres;
  • o narcotráfico, que pode ganhar força com os governantes dando a atenção prioritária merecida à COVID-19. Abril, em pleno isolamento, foi o mês mais violente deste ano;
  •  o SUS necessitando mais recursos e compensar a pouca presença em áreas do interior;
  • a crise do setor de transporte aéreo decorrente da pandemia;
  • o isolamento econômico e comercial do Brasil em relação aos outros países, devido ao aumento do número de infectados e mortos;
  • a dificuldade de coordenação internacional das ações de saúde – o Governador do Acre não consegue se coordenar com o governador do Pando na Bolívia;
  • o esforço mínimo no Brasil, pouco priorizando a área de ciência e tecnologia;
  • o quase monopólio de produção de equipamentos hospitalares e de remédios por poucos países.
  • a desigualdade social;
  • as cidades precisam ser repensadas;
  • agendas sanitárias e ambientais pouco valorizadas.
  • a falta de liderança para enfrentar as pandemias. Como esperar que a população siga as orientações das autoridades se não houver uma liderança e confiança no governo? Ainda mais em um mundo em que a democracia representativa está em xeque;
  • a falta de humildade para olhar o conjunto das políticas públicas antes de criar novas. Cabe aqui novamente abordar as crises sanitárias anteriores e como não aprendemos com elas e não nos preparamos para a próxima crise;
  • as políticas e programas públicos não são avaliados quanto às suas entregas e não priorizam o esforço multilateral na busca de soluções para os problemas da humanidade.


Como se vê o futuro pós pandêmico:

  • as pandemias anteriores, no último século, não conseguiram alterar o Mundo.
  • caso surja uma vacina ou remédio eliminam-se em grande parte os problemas caudados pela COVID-19, mas permanecem os problemas como falta de habitação, falta de pesquisa, desigualdade de oportunidades, etc;
  • o risco de achar que os antigos problemas podem ser aceitáveis, quando passar a situação dramática da atual ameaça sanitária;
  • a probabilidade grande de uma futura pandemia ainda mais catastróficas, com o aumento da população mundial;
  • adotaremos renda mínima ou renda básica permanente.


Como foi citado ao início, o verdadeiro valor de um governante se mostra em situações de crise. Vimos que alguns conseguiram conter a crise em suas dimensões da saúde e de seus reflexos na economia. Outros permitiram que, por falhas na gestão da crise, se somassem a estas as crises sociais e as políticas. De qualquer forma, em ambos os casos, o que fica de mais marcante nesta pandemia é a evidência das desigualdades  para enfrentá-la.


Photo by engin akyurt on Unsplash 



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